Uma Vida Pequena, da escritora Hanya Yanagihara, finalista do Man Booker Prize, do National Book Award e candidato ao Pulitzer, traz como protagonistas quatro amigos, que se conheceram na universidade e chegam à Nova York, para tentar alavancar suas carreiras, todos recém formados.
JB, um imaturo e ambicioso, é pintor e ama retratar seus três amigos em suas obras de arte; Malcom vive em busca de atender os requisitos de seu pai, é um arquiteto perfeccionista; Willem, que sonha em ser ator e trabalha como garçom, possui uma grande frustração/culpa familiar; e Jude, que é órfão e cheio de segredos, é um advogado e expert em matemática. Todos eles possuem problemas e frustrações, sendo que Malcom e JB, inicialmente, não possuem grandes dificuldades financeiras, enquanto Willem e Jude sim.
É preciso entender que esse é um livro extremamente difícil de se ler. Não no sentido de sua escrita ou narrativa, mas na essência de suas histórias, já que ele traz temas como abuso sexual, prostituição infantil, pedofilia, automutilação, tentativa de suicídio e bullying. É comum encontrar críticas relacionadas ao excesso de sofrimento que é jogado majoritariamente sobre um dos personagens, o Jude, mas, ainda assim, o leitor também fica imerso em assuntos positivos. Apesar da capacidade profissional da autora, é fundamental frisar que, para quem está em busca de entretenimento ou é sensível aos assuntos mencionados, esse não é o livro indicado.
O leitor tem a oportunidade de acompanhar várias décadas da evolução de vida desses quatro amigos; e quais histórias foram responsáveis por manter uma amizade por tanto tempo. Além de conhecer mais intimamente a personalidade e as dores de cada um. Porém, sem dúvida, o foco principal gira em torno de Jude, que vive atormentado por segredos do seu passado, que ele se recusa a compartilhar.
Chega a um determinado momento, que os amigos de Jude passam a pressioná-lo sobre certas atitudes dele, principalmente sobre a forma como ele escolheu viver: ocultando suas histórias. Eles consideram tal atitude um pouco ofensiva, já que os amigos acolheram Jude, quando nitidamente, o mundo o rejeitou. Mas, aos poucos, a compreensão de que amizade vai muito além do que isso vai esvaecendo essa ideia, principalmente por parte de Willem, com quem Jude se sente mais confortável e mantém um elo mais forte.
Jude se mutila excessivamente, seja quando ele não consegue algo, no intuito de se punir, ou quando ele quer estar no comando do próprio corpo, no intuito de provar. É deixado bem explicito no livro que isso acontece em decorrência de traumas que ele sofreu. E por muito tempo Jude não consegue parar de se cortar, de não confiar nas pessoas e de não conseguir se expressar/revelar. E é obvio que existe aquela polêmica do limite, do cansaço, da desistência ou da não desistência por parte de quem cuida, mas isso só pode ser entendido/questionado por quem vive ou convive com isso.
O ápice do livro é quando o leitor descobre (lentamente) o que aconteceu especificamente com Jude e até quando ele vai conseguir carregar sozinho toda aquela bagagem, trazendo à tona a importância do apoio familiar, dos amigos e da ajuda profissional.
É admissível reconhecer que Hanya foi prolixa, ainda mais quando se fala em dor. Mas ela conseguiu criar personagens altamente cativantes; conseguiu extrair cenas tocantes em um ambiente onde não havia esperança de felicidade; além de conectar várias histórias em diferentes lapsos temporais sem se perder ou deixar pontas soltas.
A forma como a adoção, o relacionamento, a amizade, o respeito e a fidelidade são tratados nesse livro é de uma sensibilidade e profundidade tamanha/surreal. Em diversos momentos, esses assuntos podem ser interpretados como egoísmo, toxicidade e dependência interpessoal excessiva, mas o intuito da autora é que o leitor pratique a empatia, a ação de se colocar no lugar do outro. E com certeza, quando isso é feito, tudo passa a ser compreensível.
Minha opinião
Existe um ponto do livro que julguei um tanto irresponsável, quando alguns personagens ficam inertes em relação aos problemas de Jude, mas é um tema com muitos desdobramentos, já que Jude, nitidamente, se recusa a ser ajudado. Mas até quanto essa recusa deve ser respeitada, já que ela existe em decorrência de um trauma? É complexo.
Esse livro foi responsável pela minha leitura favorita de 2020. Entendo que é doloroso, mas o nível de aprendizado que saí dele foi grandioso. Nem sempre o que te torna uma pessoa melhor ou mais forte vem do leve ou do simples. E por mais que seja difícil de acreditar, eu consegui enxergar muita beleza nele.
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